O Poder Transformador Da Poesia

A poesia é uma arte esquecida cujo potencial tem sido várias vezes negligenciado.

O poder catártico da arte é a sua função mais conhecida, sendo várias as teorias de que o relacionamento e a interpretação pessoal do eu com a obra permite não só uma recriação do intelecto do ser humano, mas também um espaço para o relaxamento interno da alma.

poesia

Qual o espaço da poesia então? E afinal o que é poesia? Será que não podemos considerar uma obra de arte, poesia? A poesia que se traz aqui hoje é em sentido lato, no sentido do fenómeno poético de natureza epifânica, reveladora, seja ela música, escultura, pintura, teatro, dança, cinema ou literatura.

Se pensarmos um pouco, facilmente denotamos que qualquer obra genuinamente gerada de forma intuitiva e subjetiva, permite a criação de algo sempre novo. Deste modo a poesia nas mais variadas formas, nunca se gasta e nunca se basta, permitindo ao seu autor recriar-se e a quem a contempla ressoar, e transcender-se através dela. Nesse sentido a poesia traz consigo o poder de transformar qualquer ser humano que se permita deixar tocar por ela.

Pense agora comigo. Quantas foram as vezes que durante o seu dia de trabalho não parou para expirar e pensou: “ainda falta tanto…” ou “que aborrecido”, ou até durante uma reunião teve de fazer o hercúleo esforço de suportar a cabeça entre as mãos, para não adormecer de tão exausto e cinzento se encontrava?

Aqui vem uma novidade! Sabia que fazer uma pausa por dia com poesia é meio caminho andado para se sentir mais enérgico e mais motivado? Sabia que a apreciação da poesia (seja ela em sentido estrito ou sentido lato) está comprovadamente aceite como um dos maiores anti-depressivos do século? Que a observação daquilo que é conotado como “belo” seja de uma forma estranha, seja o “belo” comumente aceite, liberta hormonas de felicidade e gera uma sensação de prazer quase instantâneo? Fica já aqui a dica, da próxima vez que estiver a ter um dia “daqueles”, em que nada parece correr bem, experimente navegar na internet e procurar fotos de animais bebés… vai sentir a diferença.

Mas prossigamos a análise teórica … será que qualquer pessoa consegue sentir este poder transformador que a poesia parece oferecer de forma inesgotável? A resposta é sim. Todavia, a subjetividade de cada obra poética pode ser entendida com diferentes intensidades, pelo que a sua apreensão pode acontecer em maior ou menor extensão. A subjetividade da obra poética permite isso mesmo, permite a adequação ao eu individual de quem a observa, constituindo-se como um tamanho único, mas personalizável, consoante cada par de olhos e cada coração que pretende imergir-se nela.

Há no entanto que ter ainda em mente outra questão e que se prende com a necessidade de abertura a este processo transformador. De nada adiantará utilizar a obra poética como forma de catarse se não estiver disposto a entrar diretamente nela sem qualquer tipo de racionalidade associada. Uma poesia não é para ser sentida através da análise da sua métrica, ela vale pelo que nos faz sentir para além dela, da mesma forma que um qualquer quadro não pode transformar ninguém, se esse alguém estiver concentrado na moldura, que de acordo com a sua opinião não foi adequada ao enquadramento do seu conteúdo. Assim, para que esse fenómeno de revelação da poesia possa acontecer, temos que nos posicionar perante ela despidos de todo o orgulho, razão e lógica para que a obra seja apreendida no único lugar para o qual ela foi destinada – o centro da pessoa.

A poesia permite-nos então não só ilustrar os sentimentos como também desenvolver aquilo que é atualmente designado como quociente emocional, ou para os poetas, o crescimento da inteligência do coração. Para além disso revela e possui em si, o poder de mostrar o feio e transmutá-lo, fazendo-nos mover interiormente e fazendo-nos sentir ainda mais humanos.

Ela tem o dom de espelhar a humanidade, aquilo que nos é comum. E o que nos é mais comum do que o nosso desejo, do que os nossos afetos? Todos queremos ser felizes, sentimos medo, ódio, ira, compaixão e temos dentro de nós bondade e paixões. E é desse material que se faz qualquer obra poética.

Todos os seres humanos desejam desde o início ter um sentido na vida, situação sobre a qual ponderamos em estágios mais avançados, quando temos a consciência da sua perenidade. E é aí que a poesia nasce, permitindo colmatar esse vazio em nós. E é nesse momento em que nos abrimos à poesia, que tudo se torna mais nítido, porque dessa forma estamos a embarcar numa viagem espiritual, sem ser religiosa, obtendo como consequência uma essência que não tem peso, nem tempo, nem medida.

Em suma, a poesia constitui-se na sua essência como uma ferramenta que permite transformar a vida de qualquer um, mediante a atribuição de significado e significância porque consola, conforta, e alimenta espiritualmente a fome em nós, que nenhuma prosperidade material pode saciar.

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About The Author

Daniela Ferreira

O meu nome é Daniela Ferreira e sou Engª. do Ambiente formada pelo Instituto Superior Técnico. Defendo que a função de um engenheiro é servir. É pôr a tecnologia ao serviço da população. Defendo a educação ambiental com unhas e dentes. Sou uma acérrima defensora de que a verdadeira forma de alcançar o desenvolvimento sustentável de que tanto se fala passa pela educação das gerações mais novas, e a re-educação das mais maduras. Adoro escrever (poesia sobretudo), pintar, desenhar e dançar. Não sou uma engenheira convencional. Mais do que isso sou uma mulher “de ideias fixas.” Leiam-me. Não se vão arrepender.

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