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Ó Maria Merkel, Tens Cá Disto?

Cito a Angela Merkel:

“Acreditar que os estudos superiores são o caminho de uma carreira de sucesso é uma ideia errada, à qual devemos continuar distantes, senão não conseguiremos convencer países como Espanha e Portugal, que têm demasiados licenciados, quanto aos benefícios do ensino vocacional.”

A Angela Merkel é uma Maria. Ela acha que ela é alemã e que eu sou português. Pois, ela está enganada. A Maria é portuguesa. E eu sou alemão.

Não! Não sou alemão. As alemãs não são as minhas modelos preferidas…

Cito a Claudia Schiffer.

“That’s impossible. An Astra doesn’t break down. (…) It’s a German.”

A Claudia Schiffer é alemã. E não é perfeita. Essa sua imperfeição não só é possível, como inevitável. Já nasceu avariada. Envelhece um dia de cada vez. Portanto, a ideia que o alemão não avaria é mentira. O destino de qualquer carro alemão é a sucata, mais ano, menos ano.

Alzheimer é alemão. Simbólico. A memória não é o atributo mais forte dos alemães. Ou não estudam história. Mas, querem dar lições sobre ensino vocacional…

Hoje, entrei no ginásio cerca das 07:00 horas. Quando saí do treino, sentei-me à saída do ginásio, vi um velho, já fragilizado pela idade, curvo, fraco e a arrastar os pés, transportava caixas. Ouvi uma mulher jovem chamar o nome dele. O Júlio tem mais de 80 anos. E ainda trabalha. Pelas circunstâncias, parece óbvio que trabalha para sobreviver, para comer.

Afinal, a Maria não é portuguesa, mas é uma Maria.

Vamos olhar para a National Basketball Association, NBA. O que uma Maria pode aprender com a NBA?

O Nuno Aguiar, do Jornal De Negócio, fala da liga socialista: NBA: a liga socialista em 15 números.

Mas, Mark Cuban, Steve Ballmer, Grousbeck, Mikhail Prokhorov, Jerry Reinsdorf, Stan Kroenke, Tom Gores, Leslie Alexander, Herbert Simon, Paul Allen, Vivek Ranadivé, Ted Leonsis, entre outros, donos de equipas da NBA, são empreendedores. E muito inteligentes. Mas, qual foi a parte do artigo do Nuno Aguiar que deu origem ao título? Cito:

“49 milhões de dólares. O socialismo chega aos Estados Unidos via desporto? As equipas da NBA que registem lucros têm de contribuir para um sistema de distribuição de rendimento que é repartido pelas equipas com prejuízos. Ou seja, os mais ricos ajudam a financiar os mais pobres. Os Lakers foram a equipa que mais contribuiu para o pote em 2013, com 49 milhões de dólares.”

O que este modelo de negócio não ignora é que a cooperação e a concorrência são igualmente determinantes para o sucesso do negócio. As receitas dependem da imprevisibilidade dos resultados, da competitividade de todas as equipas, da qualidade do espetáculo, entre muitas outras variáveis. Não há lugar na NBA para países credores e países devedores, países ricos e paises pobres ou países do Norte e países do Sul da Europa.

Não é um modelo igualitário. Cada membro, indivíduo, recebe o reconhecimento do seu mérito, da sua competência, do seu trabalho e do seu suor. Mas, a consciência de cada membro vai para além do seu interesse próprio. É o reconhecimento de interesses comuns e, especialmente, a consciência dos espaços e momentos adequados para cooperar e para concorrer.

É uma consciência que transcende o mito da selva, onde supostamente existe uma luta sem tréguas pela sobrevivência do mais forte. Ora, sente-se no sofá e olhe para os seus filhos. O selvagem é você? E a cidade onde você vive é a selva? É essa a sua visão do mundo? Parece ser essa a visão da Angela Merkel.

O argumento da Angela Merkel é que a Alemanha tem que dar o exemplo de cuidar de si própria para liderar a União Europeia. Como é que podemos confiar que, quando quer convencer Portugal e Espanha sobre um determinado modelo de desenvolvimento económico, não está ainda a cuidar dos interesses da própria Alemanha?

Mário Draghi! Presidente do Banco Central Europeu. Cito:

“First, the existing flexibility within the rules could be used to better address the weak recovery and to make room for the cost of needed structural reforms.

Second, there is leeway to achieve a more growth-friendly composition of fiscal policies. As a start, it should be possible to lower the tax burden in a budget-neutral way.This strategy could have positive effects even in the short-term if taxes are lowered in those areas where the short-term fiscal multiplier is higher, and expenditures cut in unproductive areas where the multiplier is lower. Research suggests positive second-round effects on business confidence and private investment could also be achieved in the short-term.

Third, in parallel it may be useful to have a discussion on the overall fiscal stance of the euro area. Unlike in other major advanced economies, our fiscal stance is not based on a single budget voted for by a single parliament, but on the aggregation of eighteen national budgets and the EU budget. Stronger coordination among the different national fiscal stances should in principle allow us to achieve a more growth-friendly overall fiscal stance for the euro area.

Fourth, complementary action at the EU level would also seem to be necessary to ensure both an appropriate aggregate position and a large public investment programme – which is consistent with proposals by the incoming President of the European Commission”

Os alemães queixam-se que o Mário Draghi não é colegial. Não conseguem convencer o Mário Draghi? Não. O Mário Draghi não é alemão. Não trata dos interesses da Alemanha. E não é um lambe-botas.

O Mário quer negociar uma solução onde todos os países ganham, uns mais, outros menos, com o acordo, com o negócio, com a solução, o que contribui para o reforço da relação de confiança entre os países que constituem a União. Afinal, é uma União, certo?

A Angela prefere que sejam declarados os países vencedores e os países perdedores, o que acentua a tensão já evidente no interior de vários países e no contexto europeu entre integração e segregação, entre liberdade e protecionismo, entre mais união e mais divisão e entre a paz e a guerra.

Sim, guerra. É essa a situação atual na Ucrânia. E sobre o papel da Angela Merkel na crise Ucraniana, não nos podemos esquecer das palavras da Victoria Nuland para o Embaixador dos USA em Kiev:

“fuck the EU”

Ela podia ter dito:

“fuck Putin”

O poder dum líder não é exterior a si mesmo. A Angela Merkel pode ser uma mulher poderosa, por causa do cargo que ocupa. E do poder político e económico que representa. Mas, liderar é uma qualidade intrínseca de cada um. Uma pessoa sem terra pode ser um líder. Uma pessoa sem abrigo pode ser um líder. Um trabalhador numa linha de produção duma fábrica pode ser um líder. Uma mãe, dona de casa, pode ser uma líder. O Presidente dos EUA pode ser o George Walker Bush…

bush ovelha

Não é líder quem quer. Mas, quem pode. Quem quer cuidar apenas de si própria não pode ser líder da União Europeia, nem sequer pode querer influenciar, convencendo, um país concorrente. Somos pobres. Mas, não somos parvos. Se a Angela Merkel não entende cooperação, escusa de fazer de conta que se preocupa com os problemas dos portugueses. Que continue a cuidar dos interesses da Alemanha, que Portugal cuidará de si.

Se cada um colhe o que semeia, precisamos de pensar o que precisamos de semear para colher o país que queremos.

A Angela Merkel tem razão em relação ao número de licenciados e ao ensino vocacional? Quem trabalha no Recrutamento e Selecção de Recursos Humanos sabe, por experiência própria, que a maioria das nossas licenciaturas não preparam os jovens para o mercado de trabalho. E criam a falsa ilusão no licenciado sobre o valor da sua licenciatura.

As escolas e as empresas precisam de criar uma relação simbiótica para aumentar o emprego e o crescimento económico, privilegiando a reindustrialização do país. Mas, se a resposta é o sistema de ensino alemão ou um sistema diferente, esse debate terá que acontecer em Portugal, sem ignorar duas questões importantes:

  • Como reindustrializar um país onde o Estado, as famílias e as empresas estão endividados?
  • Como formar profissionais para o mercado de trabalho, que são PESSOAS? Não são máquinas.
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