Mais população, menos PIB por pessoa

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Portugal tem mais habitantes do que as estimativas indicavam. A descoberta muda a forma como o país é medido, a riqueza produzida mantém-se praticamente igual, mas distribuída por uma população maior faz Portugal descer no ranking europeu do PIB per capita. Mais do que uma revisão estatística, trata-se de uma mudança na forma de compreender a economia portuguesa.

Há números que acabam por reescrever uma história inteira, durante meses, Portugal acreditou que tinha recuperado algum terreno na corrida europeia da riqueza por habitante. Talvez estivéssemos um pouco mais próximos da média da União Europeia do que no passado recente, afinal de contas, o Instituto Nacional de Estatística muda a lente e, de repente, o país parece mais distante economicamente.

Não foi a economia que encolheu. Foi a população que cresceu.

O INE reviu a estimativa da população residente para 11.424.031 pessoas no final de 2025, numa revisão que abrange também os anos entre 2021 e 2024. A mudança resulta de uma nova metodologia, apoiada em dados administrativos da AIMA e em métodos de identificação de residência mais robustos. Em linguagem simples, havia mais pessoas a viver em Portugal do que as estatísticas anteriores conseguiam captar.

À primeira vista, pode parecer apenas uma correção técnica. Mas as estatísticas económicas vivem de divisões simples. Se a riqueza produzida é repartida por mais habitantes, o resultado por pessoa diminui.

É precisamente isso que acontece ao PIB per capita.

As estimativas preliminares do Eurostat colocavam Portugal, em 2025, nos 81% da média da União Europeia em Paridades de Poder de Compra (PPC). Esses cálculos, contudo, utilizavam a informação disponível até 11 de março de 2026, antes da revisão populacional do INE.

A nova realidade mostra um cenário significativamente diferente. Mantendo o mesmo Produto Interno Bruto, cerca de 306,8 mil milhões de euros, mas distribuindo-o por uma população maior, Portugal passaria para 76,2% da média europeia. Face à zona euro, desceria de 78,6% para aproximadamente 74%.

As consequências não são apenas percentuais. No ranking europeu, Portugal deixaria o 18.º lugar para ocupar o 22.º, ultrapassado por países que, até agora, pareciam mais distantes na fotografia económica. Na zona euro, a descida seria do 15.º para o 17.º lugar.

O PIB nominal por habitante ficaria em cerca de 26.853 euros, bastante abaixo da média europeia, estimada em aproximadamente 41.600 euros por pessoa.

O mais curioso é que esta revisão também altera a forma como olhamos para o passado.

Durante anos repetiu-se que Portugal estava lentamente a recuperar da crise financeira e da década perdida. Em 2019, o país representava 77,2% da média europeia em PIB per capita. Com os novos cálculos para 2025, afinal estaremos abaixo desse valor. E a distância torna-se ainda mais evidente quando se olha para uma memória mais longa, em 1999, Portugal atingia 85% da média da União Europeia.

É difícil ignorar o simbolismo. Um quarto de século depois, produzimos mais riqueza em termos absolutos, exportamos mais, recebemos mais investimento e temos uma economia mais internacionalizada. Ainda assim, quando a riqueza é dividida por quem cá vive, o país surge relativamente mais afastado do centro europeu.

Mas há outra história escondida nestes mesmos números.

Portugal tornou-se um país profundamente moldado pela imigração.

No final de 2025 residiam em território nacional 1.597.539 cidadãos estrangeiros, representando 14% da população residente. Em apenas quatro anos, entre 2021 e 2025, esse universo cresceu em 849.384 pessoas. O maior salto ocorreu em 2022, com mais de 326 mil novos residentes estrangeiros, seguido de 2023, com quase 276 mil, e de 2024, com mais 188 mil. Em 2025, o crescimento desacelerou para cerca de 59 mil pessoas.

Sem esse fluxo migratório, a realidade demográfica portuguesa seria muito diferente.

O país continua a morrer mais do que nasce. Em 2025, o saldo natural foi negativo em 34.053 pessoas. Só o saldo migratório positivo, de 70.862 pessoas, permitiu que a população aumentasse em 36.809 habitantes.

Há uma ironia difícil de escapar.

São precisamente os novos residentes que ajudam Portugal a contrariar o envelhecimento, a preencher vagas no mercado de trabalho, a sustentar setores inteiros da economia e, simultaneamente, tornam mais exigente o cálculo da riqueza por habitante. O denominador cresce mais depressa do que o numerador.

Isso não significa que Portugal tenha empobrecido de um dia para o outro. Significa, antes, que passámos a medir o país com maior precisão.

E talvez seja essa a principal lição destes dados. As estatísticas não mudam apenas tabelas, mudam narrativas. Durante anos discutimos imigração quase exclusivamente como um fenómeno social ou político. Hoje percebemos que ela também altera a forma como avaliamos o desempenho económico nacional.

No extremo da tabela europeia, o contraste continua impressionante. O Luxemburgo mantém um PIB per capita equivalente a 239% da média da União Europeia. No outro lado encontram-se Bulgária e Grécia, ambas com 68% da média comunitária. Portugal permanece entre esses dois mundos, longe dos países mais ricos, mas também acima dos que continuam a enfrentar maiores dificuldades estruturais.

A questão talvez já não seja apenas saber em que posição estamos no ranking. Rankings sobem e descem, sobretudo quando mudam as metodologias. A pergunta mais importante é outra, estaremos a criar riqueza suficiente para que uma população maior, mais diversa e mais envelhecida consiga viver melhor daqui a dez anos do que vive hoje?

E o leitor, acredita que Portugal está verdadeiramente mais pobre, ou apenas passou a conhecer-se melhor através dos seus números?

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