No Dia Mundial da Produtividade, Portugal volta a confrontar-se com uma realidade desconfortável, trabalhamos muito, mas continuamos a criar pouco valor. Para milhares de PME, isso traduz-se numa margem cada vez mais apertada, salários difíceis de aumentar e uma corrida permanente para fazer mais com o mesmo.
Há uma imagem que ajuda a perceber o problema. Imagine um empresário a remar contra a corrente. Cada remada exige mais força, mais combustível, mais horas. Mas o barco avança pouco. Não porque o remador seja pior. Porque o rio mudou, é isso que está a acontecer à economia portuguesa.
No Dia Mundial da Produtividade, os indicadores deixam um aviso claro, a economia continua a crescer, mas fá-lo a um ritmo cada vez mais lento. O Banco de Portugal prevê que, depois de um crescimento de 1,9% em 2025, o PIB abrande para 1,8% este ano e para 1,6% em 2027. Ao mesmo tempo, a inflação volta a acelerar devido ao choque energético provocado pelo conflito no Médio Oriente, pressionando custos de produção e consumo.
Para uma PME, esta combinação tem uma tradução simples, vender deixa de ser suficiente. É preciso produzir melhor.
Trabalhamos. Mas criamos valor suficiente?
Portugal continua entre os países menos produtivos da União Europeia em produção de riqueza por hora trabalhada, um problema estrutural que se arrasta há décadas. A maioria das empresas portuguesas são pequenas ou microempresas, com reduzida capacidade de investimento em capital, inovação e tecnologia.
Não é por falta de esforço. É por falta de escala.
O próprio Banco de Portugal identifica que o crescimento futuro dependerá, precisamente, de ganhos de produtividade, associados à melhoria das qualificações da população, ao aumento do peso de serviços de maior valor acrescentado e à digitalização da economia.
A diferença para países como Alemanha, Dinamarca ou Países Baixos não está nas horas trabalhadas. Está no valor criado em cada hora.
E essa diferença acaba sempre por aparecer… na conta bancária.
Quando a produtividade falha, a margem desaparece
Durante anos, muitas PME conseguiram sobreviver compensando baixa produtividade com mais horas de trabalho e equipas numerosas. Hoje essa fórmula está esgotada.
Os salários continuam a subir, e bem, do ponto de vista social, mas quando o valor produzido por trabalhador cresce pouco, esse aumento deixa de ser financiado pela riqueza criada e passa a sair diretamente da margem da empresa.
O Banco de Portugal estima aumentos do salário médio por trabalhador de cerca de 4% em 2026, enquanto os ganhos reais de produtividade permanecem bastante mais modestos.
É aqui que entra um conceito pouco conhecido fora da economia, o índice de Kaitz, na prática, mede a distância entre o salário mínimo e o salário mediano. Quanto menor essa distância, maior é a compressão salarial. O fenómeno tem duas consequências.
Quem entra no mercado de trabalho ganha relativamente melhor do que há alguns anos.
Mas quem investiu em formação, adquiriu experiência ou assumiu responsabilidades vê a diferença salarial diminuir.
O resultado é conhecido por qualquer gestor, dificuldade em reter talento qualificado e maior facilidade em perdê-lo para empresas maiores ou para o estrangeiro.
O verdadeiro problema das PME não é a falta de trabalho
É tentador pensar que basta vender mais. Nem sempre.
Uma empresa pode aumentar as vendas e, ainda assim, terminar o ano com menos rentabilidade.
Basta que cada venda continue a exigir demasiadas horas de trabalho, demasiadas tarefas repetitivas e demasiados processos manuais.
É precisamente aqui que a produtividade deixa de ser um conceito académico e passa a ser uma questão de sobrevivência.
Enquanto os custos energéticos sobem e a economia desacelera, cada minuto desperdiçado pesa mais na tesouraria.
O Banco de Portugal alerta que o investimento deverá perder força em 2027 com o fim do impulso do PRR, precisamente quando o contexto internacional continuará marcado por elevada incerteza.
Esperar que o mercado volte aos níveis de crescimento anteriores pode ser uma estratégia demasiado cara.
A IA deixou de ser uma curiosidade. É uma ferramenta de gestão.
Há poucos anos, falar de inteligência artificial parecia reservado às grandes tecnológicas. Hoje, uma pequena empresa consegue automatizar atendimento, responder a clientes, produzir propostas comerciais, resumir reuniões, organizar documentação, criar campanhas de marketing e analisar dados por uma fração do custo de contratar mais um colaborador.
Não significa substituir pessoas, significa libertá-las do trabalho repetitivo para aquilo que realmente cria valor. O mesmo acontece com softwares de faturação inteligentes, CRM, automação de processos ou gestão documental, cada tarefa eliminada é tempo devolvido ao negócio.
Cada hora recuperada aumenta produtividade sem aumentar custos fixos.
O investimento mais barato continua a ser a formação
Há um erro frequente nas empresas, comprar tecnologia sem preparar as pessoas, uma ferramenta só cria valor quando alguém sabe utilizá-la, o Banco de Portugal identifica precisamente a melhoria das qualificações como um dos fatores que poderá aumentar a produtividade portuguesa nos próximos anos.
Formação em gestão, vendas, análise de dados, inteligência artificial ou liderança continua a oferecer um dos melhores retornos sobre investimento disponíveis para uma PME.
Gestão profissional ainda faz a diferença
Portugal continua a apresentar resultados modestos nos indicadores internacionais relacionados com práticas de gestão, isto não significa que os empresários portugueses trabalhem menos. Significa que muitas empresas continuam demasiado dependentes do fundador.
Quem aprova tudo.
Quem resolve tudo.
Quem sabe tudo.
Uma empresa cresce quando deixa de depender apenas da memória do dono, processos escritos, indicadores, delegação, objetivos claros e decisões baseadas em dados continuam a ser ferramentas muito mais poderosas do que parecem.
Enquanto espera pelo Governo…
Há medidas estruturais que dependem da política económica.
Fiscalidade.
Energia.
Justiça.
Infraestruturas.
Mas há outras que começam amanhã de manhã.
Olhe para a sua empresa e faça três perguntas simples:
1. Que tarefas repetitivas ainda ocupam horas que podiam ser automatizadas?
2. Em que processos continua a depender exclusivamente de papel, Excel ou memória?
3. Se um colaborador experiente saísse hoje, quanto conhecimento sairia com ele?
Talvez descubra que a produtividade não começa numa máquina nova.
Começa numa decisão.
Porque, no fim do dia, produtividade não é produzir mais, é criar mais valor com o mesmo esforço, e, num país onde o crescimento abranda, a energia encarece e a concorrência já não vem apenas da empresa da rua ao lado, essa pode ser a diferença entre sobreviver ou ficar para trás.
Afinal, quando foi a última vez que mediu o tempo que a sua empresa perde em vez do tempo que trabalha?
Porque as economias mudam com políticas, mas as empresas mudam quando alguém decide atravessar a fronteira entre fazer como sempre e construir o futuro.