As origens do storytelling
Porque gostamos de um bom filme, de uma peça de teatro, de uma anedota bem contada? Porque é que as pessoas que contam histórias parecem ser mais populares que as outras?
Somos todos feitos de histórias, de emoções, de partilha e pertença. E por mais recente que este fenómeno pode parecer, se pararmos para pensar, quem não se lembra do poder visual das gravuras toscas, simples, pintadas em cavernas por caçadores primitivos, e que nos evocam claramente uma história, tão associada às nossas origens remotas. Terá sido esse o início visível do storytelling? Ninguém pode dizer ao certo, mas é um bom ponto de partida.
A tradição de passagem de histórias, de gerações para gerações, faz parte do nosso ADN enquanto seres, sociedade, enquanto raça. Não se sabendo bem as origens exatas do Storytelling, acredita-se que terá começado à medida que nos fomos agregando, que nos fomos tornando mais “tribais” e mais associativos, a par da nossa evolução gregária.
Antes de termos começado a ler e a escrever, tínhamos que confiar e depender da memória como contributo importante para a aprendizagem e alguns elementos da nossa sociedade, tinham essa veia e dom de contadores respeitados de histórias, que se perpetuavam de geração em geração.
O storytelling na comunicação actual
Nunca se falou tanto e tão intensamente de storytelling como hoje. Os princípios remotos do storytelling estão a ser usados pelas marcas, como forma empática, partilhável, viral e altamente memorável de passar conceitos de comunicação associados a produtos, serviços e bens detidos pelas empresas, através de estratégias bem desenhados de “content marketing.
Numa altura em que o excesso de informação é esmagador, em que os canais de acesso a conteúdo são quase omnipresentes, é vital capturar a atenção do consumidor, e isso só é conseguido pelos melhores e mais emocionantes contadores de histórias: já não temos paciência, tempo nem margem de atenção para mensagens publicitárias aborrecidas, quadradas e desinteressantes, para anúncios sem uma boa história.
O consumidor no centro da mensagem
Nem sempre o marketing ao serviço das empresas, colocou no centro da comunicação o consumidor, sendo frequente que o produto, preço, empresa ou serviço apareça como epicentro da comunicação, colocando o potencial cliente como espectador passivo da mensagem.
Alerta! Os tempos mudaram e as marcas que querem marcar, devem ter como premissa fundamental o que as pessoas querem ouvir e partilhar: uma vez mais, analisa-se a inevitabilidade da passagem da “mensagem corporativa tradicional” para uma mensagem assente em “content marketing”, altamente partilhável, o mais próximo do mindset das pessoas possível. Pense-se no café e na facilidade com que contamos histórias aos nossos amigos, e que com alguma frequência envolvem marcas, produtos ou serviços que experimentamos, e que decidimos inserir na nossa vida privada, sem qualquer interferência da marca. Esta ação voluntária enquanto “marketer” no nosso círculo, é altamente eficaz.
As pessoas confiam em pessoas, não em empresas e marcas.
Turismo de Portugal
Um exemplo claro de aproximação ao storytelling e mudança de paradigma
Ao longo de décadas, o Turismo de Portugal comunicou o nosso potencial enquanto destino turístico, usando formas de comunicação institucionais, usando veículos de comunicação meramente informativos e canais de comunicação “standard”, bastante em voga e aceites de forma transversal pela comunidade, pelas agências e pelos próprios decisores. Nos últimos anos, Portugal tem assistido a uma mudança significativa de direção, colocando o destino Portugal literalmente na boca do mundo, através de técnicas de content marketing mais alinhadas com as novas práticas, com os novos canais de marketing (social media), e acima de tudo, com as pessoas. Tem sido essa uma das grandes revoluções da comunicação do nosso pais enquanto produto: fazer com que pessoas, falem para pessoas, de forma genuína, autêntica e intensa do nosso país como fabuloso destino turístico.
Exemplos de “content marketing” aplicados ao turismo
Anthony Bourdain, o mediático e espectacular chef, escritor e apresentador de programas de televisão, fez uma incursão em Portugal, em que um dos seus vídeos contados na primeira pessoa, conta com mais de 230 000 visualizações. Por ser uma autoridade mundial na gastronomia, age como um embaixador da marca Portugal. Ver o vídeo até ao fim é simplesmente delicioso, partilhável e memorável.
Mcnamara, o gigante das ondas da Nazaré
O surfista americano mundialmente conhecido, famoso pelas suas incursões inacreditáveis nas ondas gigantes na Nazaré, foi convidado a produzir um documentário na primeira pessoa, sobre Portugal. 21 dias, 7 regiões, 2 arquipélagos, comida, experiências e hospitalidade são o mote para o documentário que cruza uma “surf trip” com turismo, produzida com informalidade, autenticidade e partilha.
Porque são estes dois exemplos interessantes e importantes para analisar?
Acima de tudo, porque incorporam os princípios de “storytelling” e “content marketing”: são feitos por exímios e descontraídos contadores de histórias, são produzidos numa perspectiva pessoal, são emotivos e autênticos, são partilháveis e representam uma mudança de paradigma: da comunicação institucional, impressa, aborrecida, para histórias contadas por pessoas e por pessoas.
E se há área que vive de histórias, partilhas, emoções e experiências, é certamente o turismo.