O dia começou como tantos outros em dezembro, com o frio a instalar-se nas ruas, o cheiro a maresia a misturar-se com o vento do norte, e as manchetes a espelharem um país que, mais uma vez, se debate entre a urgência e a esperança.
Em Caminha, o mar, esse eterno personagem da história portuguesa, escreveu mais um capítulo trágico, três pescadores indonésios desaparecidos após um naufrágio, e uma comunidade em suspenso, com os olhos postos no horizonte à espera de um milagre.
São homens que, como tantos outros imigrantes, mantêm viva uma tradição que os portugueses já não querem ou não podem seguir. E é irónico, ou talvez revelador, que num país de navegadores, sejam estrangeiros a enfrentar as ondas por nós.
Enquanto as buscas se arrastam no Atlântico, em Lisboa, a política segue o seu curso implacável. Luís Montenegro, com a frieza de quem sabe que as palavras têm peso, afasta a regionalização para depois da legislatura, como se adiar uma decisão fosse o mesmo que resolvê-la.
Os autarcas protestam, os comentadores debatem, e o país fica à espera, mais uma vez, de um futuro que parece sempre adiado. Será que temos medo de nos descentralizarmos, ou será que, no fundo, ainda não sabemos bem quem somos quando não estamos todos a olhar para a mesma capital?
Mas hoje não foi só dia de política e tragédias marinhas. A prisão preventiva de Paulo Abreu dos Santos, adjunto de uma ex-ministra da Justiça, por suspeitas de abuso de menores, abalou o país. As notícias falam de uma possível rede internacional de pedofilia, de crianças portuguesas envolvidas, e de um sistema que falhou em proteger os mais vulneráveis.
É um caso que nos confronta com a face mais escura da sociedade, e com a urgência de uma justiça que não só pune, mas previne.
E depois há os números que assustam, mais de 80% dos jornalistas sem formação em Inteligência Artificial, num mundo onde a desinformação se propaga à velocidade de um clique.
Como confiar nas notícias se quem as escreve não domina as ferramentas que as podem manipular? É um paradoxo cruel, vivemos na era da informação, mas corremos o risco de nos afogarmos na ignorância.
Enquanto isso, o inverno chega com tudo. A depressão Emília aproxima-se, e o IPMA avisa, frio, chuva, neve. Na Serra da Estrela, os acessos já fecharam, na Madeira, os termómetros caíram abaixo de zero.
A natureza, indiferente às nossas crises, lembra-nos que somos todos pequenos diante das sua força. E talvez seja esse o consolo nestes tempos confusos, perceber que, apesar de tudo, ainda há coisas maiores do que nós.
Mas não é só de tempestades e tragédias que se faz um dia. Há também as pequenas revoltas, os gestos de desespero que viram notícia, um homem que destrói televisões à martelada num centro comercial, como se estivesse a quebrar o eco de uma sociedade que já não o ouve, um baleamento à porta de uma discoteca no Montijo, lembrete de que a violência não escolhe hora nem lugar, ou um ex-colaborador que atropela uma montra por vingança, como se as feridas pessoais pudessem ser saradas com vidros partidos.
E, claro, há a economia, essa eterna promessa. Montenegro fala num salário mínimo de 1.600 euros, mas a realidade é que, em janeiro, o aumento será apenas para 920. Os números macroeconómicos podem até impressionar lá fora, mas no bolso dos portugueses, a matemática é outra.
O país pode até ser considerado a “melhor economia do mundo”, mas isso pouco significa quando os trabalhadores imigrantes, aqueles que nos ajudaram a crescer, começam a ir embora, cansados de esperar por um Portugal que os valorize.
Na educação, a crise é silenciada, mas não menos urgente. Greves, falta de professores, aulas suspensas. Os sindicatos gritam, os pais protestam, e os alunos ficam sem respostas. O governo anuncia o pagamento de horas extra acumuladas desde 2018, como se isso bastasse para tapar os buracos de um sistema que parece estar a desmoronar-se.
E assim, entre o mar revolto e as promessas adiadas, Portugal acorda hoje como um país que ainda não encontrou o seu rumo.
Mas talvez seja precisamente nestes dias, quando as notícias são espelhos das nossas contradições, que devemos olhar com mais atenção.
Porque é nos momentos de crise que se revelam não só os nossos medos, mas também a nossa capacidade de resistir. E se há algo que a história nos ensinou é que, mesmo nas tempestades, os portugueses sempre souberam navegar.