CrowdFunding – Financiamento De Projectos E O Poder Das Multidões

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Obter os fundos necessários à concretização de uma ideia é um dos primeiros obstáculos com que os empreendedores se deparam. Poderá o crowdfunding funcionar como uma estratégia viável de redução risco?

Num contexto económico de grande imprevisibilidade, em que os únicos factores que podemos ter como certos são as dificuldades de penetração em mercados cada vez mais competitivos e o reduzido poder de compra da generalidade da população, é natural que os empreendedores procurem formas de minimizar o risco quando desenvolvem um projecto inovador. E se o risco assume, geralmente, a forma de um investimento inicial considerável, a melhor forma de o dissipar é partilhando esse encargo com alguém. O problema é que nem toda a gente tem a possibilidade de contactar um investidor profissional (como acontece com concorrentes do reality show americano Shark Tank, em vias de ser importado para a televisão portuguesa), e os amigos e conhecidos dificilmente têm o capital disponível para uma aventura deste género (por modesta que seja). Além disso, este tipo de partilha do risco implica também a partilha dos frutos que poderão surgir no futuro (normalmente a contrapartida para o investidor é a aquisição de uma percentagem dos títulos da empresa ou algum tipo de plano de pagamento a longo-prazo).

E se houvesse uma forma de obter esse capital inicial sem comprometer o futuro da empresa, sem estar dependente de conhecimentos (ou das tão portuguesas «cunhas»), mas da qualidade da ideia?

E se esse financiamento não tivesse de provir de uma única pessoa, ou entidade, mas de várias pessoas, não necessariamente com grande poder económico – os nossos clientes?

Crowdfunding é um termo que conquistou recentemente o seu espaço no nosso vocabulário. Para alguns, ainda poderá ser um chavão incompreensível, mas, compreensível ou não, faz parte da realidade. Pode ser definido de forma simples como um processo de financiamento de projecto (de natureza social, comercial ou artística) através da angariação de apoios de um grande número de pessoas, utilizando geralmente a Internet como plataforma de divulgação.

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É uma ideia simples, na verdade: se as pessoas gostarem o suficiente da ideia, vão querer vê-la concretizada, possivelmente até investir algum do seu próprio dinheiro para que tal aconteça. Porque são muito raros os casos de pessoas dispostas a dar dinheiro em troco de nada, é habitual haver um sistema de recompensas que variam mediante o valor da contribuição. Desde recompensas simbólicas por doações baixas, passando pelo acesso antecipado ao produto ou serviço para valores próximos do preço unitário, até recompensas extravagantes e personalizadas para os poucos utilizadores com contribuições mais significativas, estas recompensas e os respectivos valores devem ser muito bem planeados e adequados à situação. Também a definição de objectivos e prazos é fundamental nesta abordagem. Um dos problemas recorrentes neste tipo de projectos é a falta de rigor na projecção dos custos e na elaboração do plano de negócios. Nunca se deve esquecer que a campanha não é o negócio, mas apenas um passo para o concretizar. Além de planear os custos associados à campanha de financiamento – como o cumprimento das recompensas prometidas – há que ter muito bem determinada a estratégia e sustentabilidade da empresa após a obtenção do capital inicial.

Alguns aspectos a ter em conta numa campanha de crowdfunding:

1. Transparecer responsabilidade e profissionalismo. Apesar de não se tratar de uma apresentação formal a um investidor profissional, é fundamental demonstrar que sabemos o que estamos a fazer, que temos a capacidade de realizar aquilo a que nos propomos e que dispomos de uma forma realista e sustentada de levar o projecto a bom termo.

2. Apostar nos Social Media. Porque este tipo de financiamento depende de um grande número de utilizadores, uma boa estratégia de social media é crucial para que se consiga «espalhar a palavra». As redes sociais permitem interagir directamente com os possíveis financiadores, um passo essencial para cimentar a confiança no projecto e estimular as doações.

3. Investir na apresentação. É habitual que as campanhas de crowdfunding sejam acompanhadas por um vídeo de apresentação do projecto. Esta é a peça fundamental da comunicação e vale a pena investir na sua produção. Uma apresentação pouco profissional é o primeiro passo para uma campanha malsucedida. No caso de os recursos serem muito limitados, deve focar-se na clareza da comunicação, devendo o vídeo ser tão curto quanto possível, sem comprometer a informação essencial.

4. Mostrar entusiasmo pelo projecto, e não pelo dinheiro. Infelizmente, muitas campanhas financiadas têm acabado por não ser concretizadas, o que leva a uma crescente desconfiança por parte dos utilizadores. É importante deixar claro que há um grande empenho e sentido de compromisso, e que o dinheiro investido é apenas um meio para tornar um sonho realidade.

5. Comunicar continuamente. Mesmo antes do início da campanha de financiamento, as bases de comunicação (redes sociais, por exemplo) devem estar fundadas. Os apoiantes devem mantidos a part da evolução do projecto, de forma a sentirem-se integrados no processo.

6. Dar um toque pessoal. Mais do que noutras situações, é importante «dar a cara», apresentar as pessoas envolvidas, mostrar um lado humano, utilizar humor e personalizar os conteúdos de comunicação. Tudo isto vai fazer crescer a confiança dos utilizadores.

7. Ter uma estrutura de recompensas adequada e clara. A par do vídeo de apresentação, as recompensas são um dos factores principais a ter em conta. Se, por um lado, devem ser aliciantes, é também importante que sejam realistas – é fundamental garantir que se cumpre com o prometido aos apoiantes do projecto. Além disso, não se devem ter demasiados escalões de recompensas que se tornem difíceis de compreender. O processo de escolha e a decisão devem ser tão simples quanto possível para o utilizador.

Um nome que anda, geralmente, de mãos dadas com o crowdfunding é Kickstarter». Trata-se da plataforma global de crowdfunding mais conhecida, que recentemente atingiu um total de mil milhões de dólares em financiamento para projectos. Mas existem outras: desde a Indiegogo: Global Crowdfunding Engine to Fundraise Online, de dimensão um pouco menor mas também com grande sucesso, ou as portuguesas Massivemov Crowdfunding Portugal e PPL Crowdfunding Portugal .

Claro que nem todos os projectos são adequados a este tipo de financiamento, nem existe a garantia de que todo o trabalho que se tem com a campanha permitirá chegar à meta proposta. No entanto, é possível olhar o crowdfunding como uma espécie de prova de conceito – desde que não existam erros de maior na comunicação, se a ideia for boa, haverá uma reacção positiva da parte do público; se não for bem recebida, é sinal de que há algo a melhorar no produto/serviço ou na estratégia (por vezes o erro pode estar precisamente na escolha do público alvo ou no timing).

Acima de tudo, esta é uma nova ferramenta ao dispor dos empreendedores. Pode não ser perfeita, mas é pelo menos um passo na direcção de uma maior democratização no acesso ao financiamento.

Sobre André Baptista
André Baptista
André Baptista é licenciado em Gestão de Marketing. Desde cedo apaixonado pelas palavras e pela literatura, juntou à licenciatura o mestrado em Edição de Texto e vários workshops na área da escrita. Leitor omnívoro, acredita na importância de uma variada e contínua consolidação e acumulação de conhecimentos. Faz trabalhos de produção de conteúdos web e de revisão de texto como freelancer.
Contacto para questões, sugestões ou propostas de trabalho: andre.piedade.baptista@gmail.com
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