Associação Simbiótica Pela Pureza Do Ar – Os Líquenes

A melhoria da qualidade do ar nas últimas décadas foi um dos grandes êxitos da política comunitária em matéria de ambiente, permitindo mostrar que em certos aspetos se torna possível dissociar o crescimento económico da degradação da qualidade do ambiente. Todavia, apesar das melhorias já implementadas, sobretudo em termos de precaução e prevenção de riscos, existem ainda problemas que persistem e que são de necessária resolução. Dentro desses problemas encontra-se a frequente reincidência de desastres ecológicos devido à poluição do ar atmosférico, os constantes problemas com chuvas ácidas, os crescentes níveis de poluição nas grandes cidades do mundo, bem como o aquecimento global.

A era da mudança chegou, quando a política começou a compreender que estas ocorrências apesar de distantes, tinham implicações na saúde da sociedade e por isso se verificou um aumento na procura de informação que permitisse uma monitorização detalhada do ambiente em que vivemos.

Uma das primeiras formas de monitorização encontrada para solucionar o problema da compreensão da poluição atmosférica foi realizada através da monitorização de líquenes.

Os líquenes são seres vivos que resultam da simbiose de um fungo e de uma alga, ou seja, na prática são uma fusão de dois seres (parece ficção científica mas não é!) que vivem um do outro, que cooperam e colaboram para a sua sobrevivência.

liquen

Estes seres provaram ser uma verdadeira associação simbiótica a favor da qualidade do ar, isto porque em termos de biomonitorização são bastante eficazes dado existir uma correlação muito forte entre a ocorrência de líquenes nas árvores e o ar puro nessa zona.

A poluição atmosférica não nos afeta só a nós seres humanos. As alterações da atmosfera suscetíveis de causar impacto, sobretudo através da contaminação por gases, partículas sólidas e/ou líquidas em suspensão afetam igualmente os líquenes, pelo que, após a sua recolha e análise se consegue facilmente determinar as quantidades de poluentes presentes na atmosfera e mapear esses valores para futura referência e comparação.

Ao recolher estes dados periodicamente e ao compilar séries temporais torna-se possível a criação de documentação para análise que permitirá conclusões sobre o estado da atmosfera, e que levará à escolha mais informada de políticas a adotar no contexto da melhoria da poluição atmosférica daquele local.

Em termos de origem os contaminantes do ar provêm de diversas fontes, no caso de emissões provocadas pela atividade humana, provêm de fábricas, centrais termoelétricas, veículos motorizados. Por outro lado, provindo de fontes naturais podem provir de incêndios florestais, erupções vulcânicas ou poeiras do deserto.

Contudo, porque é que se torna tão importante o estudo da poluição atmosférica?

A poluição atmosférica é um dos tipos de poluição mais importantes devido à sua escala, isto é, os seus impactes podem ocorrer a uma escala local mas a sua consequência prolongar-se ao nível regional ou global, sobretudo devido às correntes atmosféricas (ventos). Para além disso, muitas são as consequências ambientais advindas deste tipo de poluição, nomeadamente a ocorrência de acidificação da atmosfera e de chuvas ácidas, o aumento do efeito de estufa nas cidades, a redução da camada do ozono, entre outras.

A eficácia dos líquenes como biomonitores da contaminação atmosférica tornou-se então uma metodologia de amplo espetro de utilização.

Mas quais as características que tornam os líquenes tão particularmente adequados a este tipo de análise?

Como não têm raízes nem sistemas vasculares, o metabolismo dos líquenes depende completamente da atmosfera e do substrato onde vivem. Como não possuem cutícula, (sendo por isso diferentes das plantas vasculares), os processos de absorção de aerossóis e gases ocorrem em toda a superfície dos seus talos. Para além disso são organismos perenes, cujo crescimento é muito lento e possuem grande longevidade (podendo algumas espécies viver mais de 2000 anos), o que permite a concretização de estudos de monitorização durante extensos períodos de tempo. O seu lento metabolismo e grande longevidade são as características que favorecem a capacidade dos líquenes de acumular diversos contaminantes em concentrações, embora o lento metabolismo seja também a característica que limita o poder de recuperação depois de uma intoxicação por contaminantes, pelo que tipicamente morrem por bioacumulação.

Em resumo, os líquenes absorvem tudo o que o ar lhes proporciona, não distinguindo entre partículas úteis para o seu crescimento e substâncias contaminantes prejudiciais – são autênticas caixas de armazenamento de gases.

Uma das grandes vantagens da biomonitorização com líquenes reside no facto de ser possível recolher de forma económica um elevado número de amostras representativas de toda uma região. Em cada uma dessas amostras é possível analisar os mais variados elementos, obtendo-se assim um conjunto de dados que permite o desenvolvimento de modelos espaciais de poluição atmosférica. Uma outra vantagem resulta da capacidade de acumulação de poluentes pelos líquenes e consiste na possibilidade de obter uma ideia integradora da poluição ao longo do tempo. Para o efeito, é possível transplantar líquenes de um local, aparentemente não poluído, para outro local durante um determinado período de tempo, de forma a avaliar a deposição de poluentes que decorreu durante esse período.

Dada a vasta potencialidade desta metodologia, a aplicação de líquenes como biomonitores constitui-se atualmente como uma forma de monitorizar a poluição atmosférica que garante uma vantagem do ponto de vista económico e estratégico, pois de uma forma geral, quando não são usados líquenes são necessários aparelhos que são dispendiosos quer ao nível de manutenção quer ao nível de aquisição e, nem sempre estão disponíveis em grande número. Para além disso o uso de indicadores biológicos (particularmente dos líquenes) permite uma avaliação da qualidade do ambiente, inclusive a realização de diagnósticos precoces quando os efeitos visuais (macroscópicos) ainda não são evidentes.

Assim sendo, quando da próxima vez sair de casa e quiser saber qual o estado do seu ar exterior, não se acanhe e olhe para a árvore mais próxima em busca da existência da melhor associação pela promoção da qualidade do ar – os líquenes.

Print Friendly

About The Author

Daniela Ferreira

O meu nome é Daniela Ferreira e sou Engª. do Ambiente formada pelo Instituto Superior Técnico. Defendo que a função de um engenheiro é servir. É pôr a tecnologia ao serviço da população. Defendo a educação ambiental com unhas e dentes. Sou uma acérrima defensora de que a verdadeira forma de alcançar o desenvolvimento sustentável de que tanto se fala passa pela educação das gerações mais novas, e a re-educação das mais maduras. Adoro escrever (poesia sobretudo), pintar, desenhar e dançar. Não sou uma engenheira convencional. Mais do que isso sou uma mulher “de ideias fixas.” Leiam-me. Não se vão arrepender.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *